Desespera-me a pressa da noite
que ameaçadoramente chega
e não é só uma ameaça: é ela
- que passa célere dentro de mim,
anoitece-me e me reparte:
Sou o oco denso desta repartição
a seção esdrúxula desta parte
da noite, onde os monstros podem existir:
Sou a parte rouca deste grito calado
a roupa rasgada na brusca ruptura
do dia , que se foi logo,
deixando-me abandonado, só.
Para quê chorar?
Sou a criança sob o peso desta noite úmida
que arvora-se ser minha educadora, mãe, tutora
e bebe a inocência dos meus olhos
apalpa-me numa súcia luxuriante
fala-me no rosto, mole, halitosamente seduz...
Quando solta-me no dia,
as flores calmas balouçam na brisa
descuidadas...
ainda trago respingada no rosto sua saliva grossa
de quem ouviu muito de perto,
de quem não respirou,
para quem nem todo o choro de vergonha contido no coração
fosse capaz de lavar tanto cuspe!
Francisco José
11/06/2010
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