domingo, 8 de fevereiro de 2009

O Estrangeiro

Esse é um quarto escuro onde entro. Ele fica fechado à chave a maior parte do tempo em que estou fora dele. Lá fora, confesso que vivo assustado, com medo, em alerta, então bato e brigo para que eu pareça com alguém que não sou - aqui dentro. Mas é aqui que eu entro. É aqui que eu pertenço. A despeito de todo o que eu construir fora dele, ele sempre vai existir como um fantasma, uma alternativa ao meu caminho, uma mala esquecida e reencontrada no caminho para a América. É aqui que eu choro, onde eu tenho piedade de mim, do que me construiu - e desconstruiu. É aqui que eu tombo. Cansado, estranho, submisso - completamente submisso, mole atingível, molusco sem concha - essa é a concha. Aqui visualizo a Tristeza, essa pessoa que sempre esteve aí, sempre presente, me esperando, estando por mim. Agora eu não quero estar com ninguém, não quero que ninguém me dê a mão, nem seu ombro, agora já não preciso mais. Cada saída desse quarto, quando tento procurar outras alternativas mais felizes, traz voltas completamente desesperançosas pra mim. Eu volto roto, pobre, vazio, esfomeado, intranquilo. Infeliz. Apesar de que há uma remota certeza, como um código celular, de que eu vou achar o que preciso fora daqui. Então me distraio, enquanto a fala lenta e atenta e sedutora da Tristeza me consola... não é uma fala doada... é uma fala que busca, engancha, captura... e me aquece. Então me distraio, arrumando aqui, ali, outras coisas em questão, outros objetos soltos, únicos, plenos... Tudo pareceu sonho, e na conversa com a Morte, agora totalmente capturado e seduzido que estou, eu digo de coisas engraçadas e estranhas que pareço ter sonhado, que saía desse quarto, e ia, insolente, me arvorando estar de posse da minha vida e das conquistas das quais eu iria atrás. Ela me puxa suavemente, oferecendo seu colo morno, de uma tepidez quase artificial, onde deito, ao seu falar manso de sono, precisar, descansar, onde deita minha cabeça, onde durmo, pra sonhar talvez...

Francisco Vieira

07/02/2009

Um comentário:

Asinim disse...

A morte e todas as suas compensações como acalento desse seu eu estrangeiro sofredor. É bela por ser única, é triste por ser última, é mistério por ser indecifrável. Mas ao abrir a porta desse seu quarto e se abrir por mundo lá fora é uma forma de deixar que ela escape pelas frestas da porta intransponível do seu sofrer.