domingo, 18 de abril de 2010

Eu estou cansado de ficar preso nessa vida


A Augusto dos Anjos


Quando a noite não te trouxer,
Qual exatamente é a atitude que eu devo tomar?
Devo cortar minha carne, quebrar meus ossos, romper minhas vísceras
Na fuga vã de uma suposta vida eterna?
Devo chorar na parede o triste fim de um começo,
Cujo começo eu nem pude conhecer?

No sofrimento dantesco que minha face projeta,
A luz de um sol infeliz a queima,
Suga-me a alma através dos olhos, dilacerando-a,
Partícula por partícula.

O meu corpo reverbera a situação de uma violação,
A dor escapa gorda e apertada dos meus poros,
A dor que dói músculo por músculo, ao mesmo tempo,
Nos ossos, nas pernas, nas orelhas...

Embate inglório do Prometeu contra as aves,
Que por fim deseja ardentemente que não lhe cresça mais o fígado!

O triste mar que escoa
No buraco mais fétido e escuro do canto do quarto:
Tenazes sutis, sensuais, cinistras, silenciosas,
Capturam os esforçadíssimos sonhos nascidos em plena crise da enxaqueca.

Mudas mãos emudecentes, pontiagudas, sádicas,
Que prometem carícias, carinhos, amores:
Mas que não cumprem e ainda se insinuam,
Insugerem-se, delineiam-se,
Mas não cumprem
Nem matam.

Azaléias corrosivas, cáusticas, químicas,
Aromatizam a agonia de eu pouco respirar...
Por tudo lama, tudo aflição, tudo crime:
Esquartejados, vencidos e sobreviventes,
Confinados no mesmo espaço afobiante
Pus, sangue, lágrima, edema, cuspe, terra, horror
- Em cada vaso uma vingança, em cada frasco uma ira.

Ajuntai-vos pois desgraças glórias que me perfazem o destino,
Tomai novo fôlego, aprumai vosso esqueleto, sacudi a musculatura,
Incuti mais força na empunhadura dessa espada,
Enfiai-ma mais fundo, dentro do ser, brandi-a
Porque não sou, nunca vou ser,
Aquele que esperaram que eu fosse.



Francisco José
18/04/2010

2 comentários:

Asinim disse...

A Natália nos trará, cantando, ao longe, surgiremos no horizonte, onde o Sol nunca se pôs, com vinho seco, música e dança naquelas velhas sextas-feiras da Av.3.

Fabrício Flávio disse...

Tomara que isso nunca acabe!

Beijos