sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Ciranda de Demônios





Tem um deles que fica me instigando a reclamação
daquilo que tenho por algo que eu poderia buscar,
não perdesse meu tempo com aquilo, agora,
que, embora eu tenha, e isso me seja insuficiente,
mal, transparentemente colada, em cima de uma possibilidade
de melhora sonhada, porque desejada, amada, acalentada.

Tem outro que me espia, por entre as frestas de trevas,
que porventura se insurgem na luz, procurando, esperando,
para que eu, se esteja sentindo prazer, e aproveitando o bom,
e aí me acusar, cobrar uma ação com resultado,
porque aquela, não dava nenhuma, e que, inclusive,
eu sou indigno de senti-la, nobre, mais que eu.

Tem um outro que nos põe em situações gostosas,
manhosas, ardiladas, pensadas, ensaiadas,
mas que vão espetando lentamente as unhas pontudas,
nas dores que outrora mentirosamente, declaráramos sentir,
e que agora no chegam e chegarão, inclusive, até onde
estivermos então.

E tem ainda aquele que te diz quem tu és,
pela boca grande de todo o mundo,
e afirma tanto e com tanta veemência como és,
te portas, sentes, pensas, andas e vês!
Te afirma com tanta ferocidade de certeza que tu,
na fluidez to teu ser agora dominado pressurosamente,
em que acreditas que és cada gesto e cada pensamento,
enganosamente construído, em cima do nada!


Francisco Vieira
21/01/2011

2 comentários:

André Gonçá disse...

De fato, cada um deveria saber a que vem seus demônios. Poucos os visualizam, percebem que eles habitam dentro do ser, a projeção das ações estão sempre primeiramente dentro de nós, nossos demônios as habitam, cada um num recanto, implícito, explícito, dançam ciranda em nossas vidas distraídas. Não me refiro a religiosidades, entendo cada um deles como extensões metafóricas de nossas personalidades.

Francisco Vieira disse...

É uma delícia poder receber um comentário tão brilhantemente construído, colorindo a minha tela!