quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Fruto da Paixão





A Elmo Serra Santana





Eu no fundo, carrego escura e dura a polpa da vida.
Atravesso dentes que me mastigam, estômagos que me fervem,
poderosos e absorventes tratos intestinais, e caio no solo defecado,
mas despertado por esse processo que me livrou da casca mais grossa no exterior,
e então agora posso absorver a umidade que vai dar vida ao princípio que eu carrego,
e que se transformará na planta aos cujos pés assistirei seu universo de nascimento,
crescimento, reprodução e morte, derretendo lentamente no meu processo contínuo lento.

Eu sou de luz!
Tenho sabor a cheiro de mar, horizonte, sol, areia e concha quebrada,
sou de amarelo, diáfana, flutuando nessa polpa minha própria delicadamente,
e meu cheiro inspira um beijo,
e envolvo com a minha leveza que enleva,
conservo-os numa acidez equilibrada, atípica dos ambientes digestíveis,
e sirvo apenas e humildemente às caras sementes às quais ofereço, seduzindo,
com meus aromas e sabores ácidos, picantes, e adocicados...

Eu sou quem se virou para dentro, dando as costas duras para o que não
fôsse–me eu mesmo, no escuro, assistindo esse balé de inquebráveis cascas,
que dançam dentro de uma bolsa de gel adocicado de bolhas dentro de bolhas,
virar uma ansiedade coletiva de se romperem, de cumprirem seu destino,
quanto estivermos todos muito maduros, então a luz vai entrar, me completando,
ao me clarear a visão de tudo aquilo que eu sempre acreditei que realmente houvesse,
os quais eu ofereço, no solo, rompida, a todos os animais e insetos que vierem
para libertá-las e depositarem-na no solo que lhe servirá de útero de terra.

Eu sou aquele que só pode ir para cima, porque quer, anseia e procura,
chegar em lugar nenhum, só pelo prazer de, na mais completa cegueira,
avançar sempre, sentindo apenas o prazer de buscar e conseguir,
abrindo meus braços que vão agarrando e se enroscando em todas as minhas conquistas,
dando-me suporte para receber a força que me vem lá da raiz, impulsionando,
rodopiando, cavalgando o nada, sentado no dorso da profunda e enigmática inexistência,
escalando o próprio futuro, deixando possibilidades de vida em cada oportunidade,
em cada lugar, em cada inspiração que eu conseguir, que eu galgar, até me faltar
a energia que me impulsiona da raiz, e eu parar, dar o último suspiro, e descansar enfim.

Eu me abro, ao espaço onde o ar acode interessado, o meu aroma,
doce, interessante, sedutor, cheio de luxúria maliciosa,
um cheiro vermelho de paixão, que incendeia e reverbera a atmosfera ao meu redor,
atraindo para o meu cálice todo inseto que quiser se lambuzar de aroma e doce,
os quais eu ofereço por conta do meu grito sensorial berrado,
e sacudindo-se meus estames e carpelos, enfim me engravidar, quando então
eu me abandonarei externamente, concentrando-me no meu ventre que passa
a existir por mim, que já sequei toda, durante o processo até a queda no solo.






Francisco Vieira
23/09/10

3 comentários:

Luciano Nunes disse...

Parabéns pelo texto, muito bem escrito, um tanto forte para mim. Mas muito bem escrito. Parabéns, sucesso. abraço.

Dois Ursos disse...

Que lindo, heim Poet !!! Parabens cara

Elmo Serra Santana disse...

E nessa madrugada, sem saber o que fazer ou pensar, me deparo (mais uma vez) com esse lindo texto escrito para mim. Muito obrigado, meu caro... me sinto aliviado da angustia que me afligia. Abração.