quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Delfinópolis VIII


Cheguei á fonte muito cansado, no alto do morro,
subindo as cachoeiras inclementes, escalando
entre mordidas e picadas, e tudo parece tão silente
que me envergonha a respiração gulosa com que mordo o ar.

Por entre o capim mimoso surge a água tranquila
que escorre docemente vinda do ventre profundo da terra,
até o primeiro e pequeno dique, ali, onde se formou um jardim subaquático,
com peixinhos alegres nadando entre espirais de algas,
e pedaçinhos de argila salpicando o fundo branco marmóreo.

Cheguei quando a dona da casa não estava, mas trouxe presente:
uma sombrinha florida, da altura de um palmo, feito com bambu,
já que o ouro seria o único metal bem vindo aqui.

O presente do ano passado está lá, do lado de fora da casa,
uma sacola de compras, exatamente como eu o deixei.
Os outros presentes também estão lá, todos enfileirados.

Aqui é um lugar onde eu preciso voltar sempre.
Passarinho voou, avisando que ela chegaria tarde,
e se foi, de volta para a sua solidão junto de outros passarinhos,
nas árvores onde descansam o afã da caça e do vôo constantes.

Eu vou descer o caminho por onde as águas se vão apressadas,
não antes primeiro de descansarem naquele singelo jardim,
recém nascidas, recém escapadas, recém iluminadas, recém respirando...
esperando firmarem-se para a longa caminhada até o oceano.



Francisco Vieira
06/09/10

Um comentário:

Dois Ursos disse...

Nossa cara. Essa foi a melhor de todas.
Ate pela beleza da natureza e por tanto que gostamos de CACHOEIRAS. E Serra da Canastra é de um encanto que entendemos perfeitamente sua inspiração.
Tao bom ver voce escrever POSITIVO.