sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Nódulos





A André Gonçalves
Os arcebispos já procederam à votação?
enquanto na terra a manada estoura,
e a pele vibra na energia que aquela força tanta produz
em meio de pássaros que se perdem em vôo,
na surpresa abrupta de se entrar na cachoeira de uma vez.

São doze aqueles que sentam e pacientemente aguardam?
a lava fecunda que num estouro ejaculatório
traz à superfície a riqueza e o calor de uma entranha foguinolenta,
áspera, rude, bruta, brilhante!
Estrelas...

Eles recebem a ficha de condenação todos num prato de prata?
a fragrância leve que inspira as massas a tornarem-se
perfumes, na ampla ferocidade das temperaturas,
que movimentam-se vigorosamente, esfriando aquele sêmen vivo,
tornando-o terra, com rega constante.

Terá fim algum dia o sofrimento da vivência desta cena?
a semente que nasce e frutifica, povoando a terra, revoendo a terra,
desenhando a camada externa de um útero proibido, protegido
onde só lá, na mata virgem, poderiam nascer os espíritos,
num seio morno e úmido, que abriga, sustenta e cria.

Assim a vida se deu, assim os rios encontraram o mar,
numa praia tranquila, deserta, coroada de sol, de umidade, de sal...


Francisco Vieira
10/12/10

Um comentário:

André Gonçá disse...

Poema digerido, eu diria, delicioso alimento. Posso entendê-lo com a estrutura semântica dividida em dois planos... Se realmente me é dedicado, então logo se nota uma referência à religião, a julgamento religioso, arriscaria uma referência a infortúnios promovidos por eles. Se existe este, o plano religioso,há paralelamente um outro. O da vida pulsante e pagã nas entranhas da terra, que não deixa de ser vida, de dar a vida, que brota de seu útero escondido, proibido... Enquanto o voto é aguardado em silêncio, a condenação, talvez inquisidora é servida em pratos de prata, requintes de crueldade e indiferença pelas coisas outras, belezas simples, que se encontram empobrecidas em suas visões fechadas do mundo e da existência mais encantadora que é o espírito, o corpo, até mesmo a sensualidade do planeta, que continua a girar, respirar, reproduzir a vida, independentemente das mãos que comandam as mãos de Deus... Se fui muito tendencioso, corrija-me. Abs